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Na última quarta-feira, o movimento do Cartório do 1º Ofício de Notas de Brasília era grande, como de hábito. A pedagoga Eugênia Medeiros aguardava pacientemente sua vez de lavrar uma procuração, acompanhada do pai, de 82 anos, e da mãe, de 74. A espera ultrapassava uma hora. Ela já estava preparada para, quando sua senha fosse chamada, apresentar uma montanha de documentos. E desembolsar R$ 20, 24. - Acho o preço descabido em relação ao ganho médio do brasileiro. Na minha profissão, não se ganha isso em uma hora de trabalho – reclama. Apesar de contrariada, Eugênia acredita que a burocracia imposta pelo sistema cartorário é importante. Diz-se sentir mais segura com uma transação comercial avaliada por um cartório. A publicitária Thais Versiani Pires concorda, pois acredita que uma assinatura reconhecida em cartório pode evitar fraudes. Mas sua própria experiência revela que a burocracia enfrentada nos cartórios nem sempre resolve. Em 2001, Thais vendeu um carro e registrou a operação em cartório. O novo proprietário não passou o bem para o nome dele e atualmente o Detran cobra dela multas adquiridas por ele. O órgão não aceitou como comprovação o documento lavrado em cartório e incluiu o nome de Thais na dívida ativa. Semana passada, ela voltou ao cartório para buscar uma orientação sobre como proceder. - Fiz a transação pelo cartório e não adiantou nada. O documento não serve para nada. O tabelião responsável pelo Cartório do 1º Ofício de Notas de Brasília, Eduardo Guimarães Alves, concorda que o setor onde trabalha tem muita burocracia. Mas diz que a atividade é essencial no Brasil, onde as falsificações e os golpes são muito comuns. - O dia em fomos um povo sério, não vamos mais precisar de cartórios. Todo dia chega documento falso. Todo mundo diz que cartório é burocrático e ganha muito dinheiro. Ninguém vê o outro lado. Evitamos as pessoas simples de serem lesadas. O tabelião diz que, apesar de ganhar muito dinheiro, corre riscos: - Eu adoraria acabar com reconhecimento de firma. Cobro R$ 2 para dizer que uma assinatura é legítima na compra de um carro. Se não for, e a pessoa for prejudicada, terei que responder na justiça e dar um carro novo a ela. A minha renda é ótima, melhor do que qualquer emprego, mas é uma profissão de alto risco. Tenho que dar segurança às pessoas. A minha função é ser chato e burocrático, e faço questão de ser.
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