COMVEN PARA CONCESSIONARIAS E REVENDEDORAS DE VEÍCULOS  
 
Denatran
Ruas da discórdia E-mail
Por Revista Encontro   

O que deveria ser espaço de convívio escancara as feridas da sociedade brasileira. O trânsito tem esta coisa desenfreada, ligeira, que a gente não nota, mas que está aí a alertar que há algo de errado e sublinha com cores de guerra: 40 mil pessoas devem morrer este ano em acidentes de trânsito. As brigas se sucedem, com nuances cada vez mais bárbaras, de tiros, a ataque com chave de roda no Rio de Janeiro, e até extintor de incêndio em Curitiba. Motoristas estressados e até despreparados, sem aprovação das instituições competentes. Foi descoberto, no início de junho, esquema de venda de carteiras, até para cegos, que resultou na prisão de 20 pessoas e no afastamento de 17 delegados. Em Minas, o valor era o mais alto do país: a permissão para dirigir saía a 1,8 mil reais. Tudo pela promessa de liberdade, velocidade, rapidez, que pára nas multas. Só em BH, foram 168,1 mil notificações nos primeiros quatro meses neste ano, sete mil a mais que o mesmo período de 2007, e denúncias de cobranças indevidas.

Números que devem crescer, por uma aritmética simples: a cada dia 11 mil novos carros, com seus motoristas, chegam às vias no país. Somam-se aos 51 milhões já existentes e travam as grandes cidades. Pesquisa da Fundação Dom Cabral mostra que em cinco anos a cidade de São Paulo vai parar, em dez é o Rio e entre dez e 15 anos, Belo Horizonte e Curitiba. Isto se não for feito nada. “Para reverter esta situação seriam necessários de 20 a 30 anos de desestimulação do automóvel, que pode ser tão ou mais danoso do que o uso de cigarro ou de bebida. Mata do mesmo jeito, mata até mais por ano e ninguém está preocupado”, diz a psicóloga Gislene Macêdo, especialista em trânsito. Ainda há tempo de se fazer algo. Caso contrário, ninguém saberá dizer aonde vamos chegar. Ou melhor, não chegaremos a lugar nenhum.

FÚRIA NO TRÂNSITO

A batalha é diária, surda: mata-se por nada no teatro do absurdo urbano. A gente só vê quando aparecem os casos mais escabrosos que ganham os noticiários e expõem um fenômeno que cresce a cada dia: as brigas no trânsito, sem motivo, sem razão, numa guerra de perdedores. Visível nas avenidas e ruas dos grandes centros urbanos, entulhadas pela reprodução desenfreada de carros. Hoje, dia em que você está lendo esta reportagem, 11 mil novos veículos, com seus imprescindíveis condutores, ganham as vias públicas deste vasto país. Amanhã serão mais 11 mil, depois a mesma quantidade, numa repetição que fez a frota aumentar em mais de 14 milhões em seis anos. Junto inflamam as divergências na sofreguidão das horas que passam rápidas e do trânsito travado, na potência do veículo para correr frente a congestionamentos que obrigam a andar a 20, 30 km por hora.

Haja paciência nestes tempos ligeiros, que exigem piscar faróis, buzinar para apressar os mais lerdos e os pedestres. Precisa passar rápido, privatizar o espaço democrático das ruas, ele sempre tem razão e não raro parte para o insulto. O outro revida e o desfecho é imprevisível. Pode parar no bate-boca, extrapolar para socos ou num tiro que leva à morte e se junta às estatísticas de mais um que perde a vida no trânsito. Tão cotidiano. Em Belo Horizonte, foram dois assassinatos em dois seguidos dias de abril deste ano; no Rio de Janeiro a tragédia reprisou em 23 de maio e chocou o país com o caso do pedestre que foi golpeado com chave de roda, na frente dos dois filhos menores, por ter protestado contra a iminência de um atropelamento. Estendeu-se, no mesmo fatídico dia, com a do estudante em São Paulo, baleado após o carro em que estava junto com amigos bater num Montana, sem danos de monta. Da discussão, veio o disparo e a morte do garoto, de 18 anos. A vida, nestes tempos, vale menos que o carro e joga luz para esta situação que todo mundo vê e prefere, é mais cômodo. ignorar.

“É sintoma da sociedade adoecida, que estimula a competição, o individualismo. Eu só me vejo. O mundo é meu. Como vou cooperar, ser tolerante, admitir erros?”, indaga a psicóloga Rogéria Freire, que fez pesquisa sobre os valores no tráfego em Belo Horizonte. Justo no trânsito das grandes cidades é que as mazelas humanas aparecem. A pessoa é pressionada a ser melhor, encontra um monte de veículos impedindo sua passagem, está com sua armadura potente, o carro, que vira extensão do corpo, dá poder, anonimato. Isolado nesta cápsula protetora, ela perde as referências de sociabilidade, não percebe a expressão do rosto do outro, se agiu sem querer. “Traduz o ato como se fosse uma agressão, mas na verdade não é. Todos estão na mesma condição: estressados, com pressa”, diz a psicóloga Raquel Almqvist, diretora do Departamento de Psicologia da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Aí não há válvula de escape que agüente, fica-se vulnerável na sua força maquinal e em qualquer situação contrária reage de forma violenta. “Às vezes é difícil a pessoa explodir ou agredir no trabalho, mas no trânsito fica mais fácil”, analisa Raquel. O outro é desconhecido, estranho, anônimo sob a película cada vez mais freqüente nos carros, ameaçador num clima inseguro das ruas. “Desenvolvemos um tipo de relação social que é de desconfiança, estamos sempre predispostos a reagir mal, de forma agressiva. Todos nós corremos o risco de extrapolar. Espero que não seja juntos, senão vira circo de horrores”, afirma a especialista Gislene Macêdo, professora da Universidade Federal do Ceará e doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

Nesta sociedade que inverte os valores, incensa o esperto, o que leva vantagem, quem obedece à lei é bobo. “A pessoa sem estes princípios da civilidade, das boas maneiras, não consegue se colocar no lugar do outro. Compete na rua, foge não sei de quê”, diz a psicanalista Priscila de Faria Gaspar. É, no jargão psicológico, o sobressair do Id, instância mais primitiva, a dos instintos sexuais e agressivos, contra o superego, a reguladora, a dos valores absorvidos ao longo da vida, neste4 nosso ego. Tão individualista, que quer carro só para ele. É percorrer as ruas da cidade para constatar que a maioria dos veículos circula só com o motorista. “A sociedade nos cobra constantemente posição social em função de como você se desloca. Se não tem carro, não existe; o pedestre, então, é cidadão de quinta categoria”, diz Gislene Macêdo.

Há incentivo de se ter carro, não há como esticar as vias, o cidadão vive no estresse de chegar, de ser melhor, de não deixar ninguém passar na frente na vida profissional, que transfere para as ruas e o outro não é ninguém. Fecha-se o círculo favorável às agressões. “Na minha pesquisa com 500 motoristas de São Paulo, concluí que o problema não está só no sujeito, mas nas variáveis do contexto: como a cidade é planejada, quais as políticas de transporte público”, argumenta a doutoranda da USP. Não que isto retire a culpa dos agressores ou as justifique. “A pessoa cometeu um ato criminoso, não está isenta. O que percebo é a urgência em classificá-la como doente e desviar a sociedade de refletir sobre o problema.”

Está aí, exposto e poderia ser evitado ao se dar preferência à coletividade e fechar passagem à individualidade. Ma há sinal verde para a harmonia nas ruas, segundo os especialistas, se houver vontade da sociedade e dos governos. “Acredito que as instituições que lidam com o trânsito deveriam encarar com seriedade a educação, a conscientização, não de vez em quando, mas constantemente”, diz a psicóloga Rogéria Freire. Associada à melhoria do transporte coletivo. “Há privilégio concreto no uso do automóvel em detrimento do coletivo. O poder público tem a responsabilidade de reverter este processo, que ele mesmo incentivou ao longo de mais de 50 anos”, diz a professora universitária do Ceará. Encontrou condições mais que propícias no caminho empreendido pelo país no crescimento econômico.

“Na verdade estamos diante de uma situação positiva, da fácil acessibilidade à compra de automóveis, mas na direção contrária da qualidade de vida”, compara Raquel Almqvist. Se o transporte coletivo é ruim, há facilidades para adquirir carros, cada vez mais possantes para exibir ao vizinho, ao motorista do lado. “É o mesmo argumento utilizado na década de 70 de que se a escola pública é deficiente, vá para a particular. Se a saúde é precária, há os planos”, diz Gislene Macedo. Não se cobra dos governos serviços públicos eficientes, prefere-se privatizar. Só que as ruas não podem ser só sua. Há coletividade, é preciso conviver com pessoas estranhas, estressadas, com históricos de vida diferentes, e motoristas dos 11 mil novos carros a cada dia. Relaxar e ver que a fechada não é proposital e, se for, releve: o carro é transporte, não arma sinistra a engrossar as estatísticas com mais e mais vítimas.

 BATALHA NAS RUAS

Confira abaixo as agressões que ocorreram nos últimos três meses.

11 de abril
O professor Leonardo Ferreira da Silva, de 40 anos, é morto, em Contagem, na Grande Belo Horizonte, após reclamar com o motorista de um Monza preto que quase o atropelou

12 de abril
O técnico em informática Raphael Eustáquio de Freitas, 25 anos, é assassinado no bairro do Barro Preto, em Belo Horizonte. Ele teria fechado um Gol prata na avenida do Contorno

23 de maio
O gerente de compras André Luiz Reuter Lima, 45 anos, é agredido pelo motorista Itamar Campos Paiva com chave de roda quando voltava para casa com os dois filhos e um amigo, na Tijuca, no Rio de Janeiro

23 de maio O motoboy Marcelo Amorim de Lima, 24 anos, é baleado depois de se desentender com um motorista no Recreio dos Bandeirantes, no Rio. Foi levado para o hospital, mas morreu.

23 de maio
O estudante Alexandre Andrade Reyes, 18 anos, leva tiro na nuca após o carro em que estava com amigos bater na traseira de um Montana, no Jabaquara, em São Paulo. O motorista Ismael Vieira da Silva, que disparou a arma, alega legítima defesa.