A polícia de São Paulo investiga uma nova forma de estelionato no estado. Quadrilhas de ladrões de veículos estão sendo acusadas de participar de um esquema de venda de carros dublês, ou clonados, - veículo que teve as placas e documentos adulterados para ser negociado no lugar de um carro regularizado.
O único carro que a dona-de-casa Irene Martins tem está na oficina há duas semanas, mas esta não é a maior preocupação dela. De julho para cá, ela coleciona multas de trânsito que não cometeu.
- Toda semana tinha uma multa nova. Era impossível uma coisa dessa - explica.
O número da placa do carro que está na oficina é o mesmo que aparece nas fotos registradas pelos radares de São Paulo, mas o ano e o modelo são diferentes. Ou seja: o carro multado seis vezes é um dublê. Em uma empresa especializada em recursos de multas mais de 300 motoristas apresentaram queixas parecidas só nos últimos dois meses. É um aumento de quase 20% em relação ao ano passado. Mas também existem dublês quase idênticos. O dono de um Gol com documento correto, por exemplo, recebeu 15 multas por infrações que não cometeu.
Para a polícia está cada vez mais difícil identificar um carro dublê. Algumas quadrilhas estão se especializando nesse tipo de crime. O motorista que dirige um desses veículos pode ser um assaltante, um seqüestrador que vai levar a vítima até o cativeiro. Mas, às vezes, a vítima é o próprio motorista: algumas quadrilhas descobriram que vender um carro dublê é um bom negócio. A polícia acredita que a forma de dar aparência legal aos veículos pode estar vindo de alguns desmanches da Grande São Paulo. É o chamado kit cabrito. O dono do desmanche compra o carro batido em um leilão, que acontece dentro da lei. Mas, em vez de reformá-lo, ele recorta as numerações que identificam o veículo e vende as peças com os documentos. Com o kit cabrito nas mãos, as quadrilhas roubam um carro com as mesmas características, trocam a numeração e vendem o carro como se fosse o original.
- Eles adulteram a numeração do chassis, além de outros selos que identificam o veículo, dificultando o nosso serviço - conta Antônio Lambert Neto, delegado da Divecar.
Difícil para a polícia, difícil também para os compradores. O consumidor deve sempre desconfiar quando o preço do carro está abaixo do valor de mercado.
- O grande perigo é adquirir um veículo nas cercanias das feiras de automóveis. Nunca comprar o veículo na rua, sempre direto do proprietário, que é aquele em cujo documento está inserido o nome. Deve pagar sempre com cheque nominal e cruzado e, de preferência, ir à residência do vendedor - previne o delegado Manoel Camassa.
Nos últimos dois meses, a delegacia responsável pela investigação de veículos roubados na capital apreendeu 250 carros dublês.